
Jonas Savimbi (foto net)
22-Feb-2006 - 0:10
Traído por antigos e actuais altos quadros, Jonas Savimbi
cumpriu o que prometera: Não abandonar Angola nem os seus soldados.
O chão de Angola tremeu, de Norte a Sul, do Leste a Oeste, não por
causa do frio provocado pelas orvalhadas das noites do Moxico, mas sob o peso do corpo
morto de Jonas Savimbi. Houve quem pensasse que fosse haver um levantamento no Centro Sul
do País devido à morte do líder da UNITA. Nada disso se passou. Hoje, aqui no NL,
dedicamos especial destaque ao assunto. Leia a opinião de Eugénio Costa Almeida, a
entrevista com Joffre Justino e as crónicas de Jorge Eurico e Orlando Castro (Alto Hama).
Por Jorge Eurico
e Manuel Gilberto
Os estados português, israelita e norte-americano jogaram um papel importante e decisivo
para que, com sete balas (há quem diga que foram mais), se colocasse ponto final à vida
de um velho e grande guerrilheiro que vai certamente figurar nos anais da História de
Angola, e não só, como tendo sido um estadista sem Estado: Jonas Malheiro Savimbi.
O primeiro, segundo consta, terá dado treino à matilha que os efectivos da Unidade
Anti-Terror (UAT) de Angola usaram para farejar o rasto de Jonas Savimbi nas matas do
Moxico. O segundo teve um papel importante no domínio das telecomunicações, ao passo
que o terceiro deu o seu assentimento para que se aplicasse o golpe final.
A morte de Jonas Savimbi, de acordo com uma fonte ligada às Forças Armadas Angolanas
(FAA), só foi possível com a colaboração de antigos colaboradores directos do líder
da UNITA, bem como de alguns que o acompanharem até ao último dia.
Savimbi foi-nos entregue. O que o general Camalata Numa conta, que tinha ido pôr as
pilhas ao sol para ouvir o relato do jogo do Sporting, não é verdade, esclareceu a
fonte que se escusou a dar mais pormenores, mas que pensa um dia escrever um livro quando
estiver às portas da sua reforma.
De facto, altos quadros da UNITA que estavam com Savimbi colaboraram no que pensavam seria
apenas a captura e não a morte. Apesar disso, ajudaram a que o seu líder fosse morto e,
pelo sim e pelo não, até estavam a alguma distância quando as armas dispararam.
Os militares das FAA e agentes da UAT que participaram da operação Kissonde
foram escolhidos a dedo para acautelar eventuais fugas de informação. Por isso, houve
generais das FAA, que se supunham presumíveis informadores de Jonas Savimbi, que perderam
o cabelo e correram o risco de sofrerem um ataque de nervos por não terem sido
seleccionados para fazerem parte da operação que levou à capitulação da UNITA e do
seu líder.
A História, essa ciência de que Jonas Malheiro Savimbi tanto avocava e prezava,
encarregar-se-á um dia de esclarecer sem sofismas nem eufemismos todos os factos, até
aqui inauditos, que levaram a que um número restrito de operacionais de UAT, acompanhado
de cães treinados algures em Portugal, a ferir mortalmente, no dia 22 de Fevereiro de
2002, o fundador da UNITA nas matas do Lucusse (Moxico).
Jonas Savimbi, que Ronald Reagan (antigo presidente do EUA) considerou, nos idos da
década de 80, um bestial combatente da liberdade, passou, nos anos 90, a
terrorista besta por causa do interesse do Governo norte-americano pelo petróleo
angolano, emocionalmente morreu muito antes de Fevereiro de 2002.
O começo do fim do velho guerrilheiro ficou marcado quando o Governo angolano decidiu
pôr em prática um projecto elaborado por um tribuno à Assembleia Nacional pelo MPLA que
visava aliciar importantes quadros políticos e militares da UNITA no interior e exterior
do País, raptar os filhos de Jonas Savimbi que se encontravam a estudar em alguns países
africanos (Togo e Costa do Marfim) e pô-los a falar contra o próprio pai.
A par das derrotas militares que levou à captura e perda de importantes cabos de guerra e
de praças fortes como o Bailundo (Huambo), Andulo (Bié), a criação da UNITA Renovada,
que tiveram como animadores principais Jorge Valentim, Eugénio Manuvakola e Demóstenes
Chilingutila, este foi o plano que deixou Jonas Savimbi militarmente desesperado e
politicamente atordoado.
Mesmo assim, não fora primeiro a traição de antigos colaboradores e, depois, a
colaboração com o inimigo de alguns dos elementos do seu Estado-Maior,
Savimbi teria escpado a mais uma das muitas tentativas para o liquidarem.
Savimbi acreditava nos seus soldados e, por isso, foi apanhado. Quando, no início de
2002, lhe foi dito que deveria abandonar a zona e que se necessário haveria forma de
alguém o ir buscar, respondeu que não abandonaria Angola nem os seus
soldados.
Disse e cumpriu. Pena foi que nem todos os seus soldados tenham sido dignos de líder que
tinham.
http://www.noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=13367&catogory=Manchete