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no meu Livro de Visitas
Almirante vermelho Rosa Coutinho Extrato do video editado na Google:
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Atenção pessoal de Angola! Àqueles que nasceram depois de 1975 (Dipanda) certamente lhes
foi ensinado nas escolas que foi o MPLA e Agostinho Neto, o chamado "pai da pátria
angolana" que lutou pela descolonização para que o povo se libertasse do jugo
colonial e tivesse uma vida melhor. Neste site vereis pormenorizadamente que isso não
passa de uma utopia e não corresponde à verdade dos factos devido às guerras fraticidas
provocadas pela ambição do poder do MPLA e dos outros partidos porque, actualmente,
Angola sendo um país com uma riqueza natural enorme, está bem pior que em 1975 que era o
país mais próspero da costa ocidental de África. Introdução Fui para Angola em 1951 ainda jovem com 19 anos cheio de ilusões para conseguir uma vida melhor do que aquela que tinha em Portugal continental. Como milhares de outros portugueses (cerca de 500 mil) devido à cegueira política de alguns ultra-esquerdistas do MFA mentores do 25 de Abril, a minha esposa e os meus quatro filhos tiveram de abandonar em 8 de Junho de 1975 a sua querida e amada terra que os viu nascer. Eu só regressei ao meu país natal em 25 de Outubro de 1975 por não ter mais condições e com risco da própria vida, tendo deixado tudo o que conseguimos com muito trabalho e sacrifício durante mais de 20 anos. Pesquisando na Internet sobre a descolonização de Angola encontrei muita coisa que me servirá de base para escrever estas Memórias além da minha vivência pessoal. Depois de muitas horas de pesquisa intensiva encontrei muitas opiniões de jornalistas, de individualidades que tiverem responsabilidade na dita descolonização, de políticos e relatos dos valentes que combateram a barbárie no norte de Angola e muitas outras coisas mas não encontrei nenhum escrito de memórias pessoais que relatassem com fidelidade o que realmente se passou em Angola desde 1961. Tive também a sorte de ter encontrado, já amarelecidos pelo tempo, (30 anos) alguns jornais de a Província de Angola de 1974/75 que tinha guardado na cave donde tirei informações fidedignas do que aconteceu naquela época. Li alguns livros escritos por jornalistas que, com risco da sua vida acompanharam os nossos valentes soldados nas operações no norte de Angola de onde obtive a maior parte das fotografias, algumas incrivelmente chocantes que irei colocar no texto para assim poder mostrar ao mundo da Internet a realidade nua e crua que propositadamente foi encoberta e desmistificar o que se disse e escreveu em Portugal sobre a descolonização de Angola, sobretudo pelos partidos de extrema esquerda. Eventualmente poderei escrever algumas imprecisões nas datas dado os anos que já se passaram e que terei de citar de memória pelo que me penitencio. Começarei por uma descrição sumária do que aconteceu em Angola a partir de 1961 até à independência em Novembro de 1975 e, só depois, escreverei a minhas Memórias desde a minha infância até à data que regressei a Portugal, inclusivamente dos primeiros anos que aqui residimos. Não omitirei nada que seja do meu conhecimento mesmo que isso vá dar uma provável má imagem nossa. Tenho conversado com alguns dos meus amigos que viveram noutras localidades de Angola diferentes onde vivi procurando obter informações fidedignas que me ajudem a repor a verdade doa a quem doer. Vai ser um trabalho árduo e que só será possível levá-lo a bom termo graficamente e ilustrado com fotografias dada a minha experiência na edição de sites na Internet. 1961 Janeiro 4-24 Prelúdio ao inferno. Na Baixa do Cassange, em Angola, negros fazem greve nas plantações algodoeiras e lançam a Guerra de Maria, assim chamada por um dos seus inspiradores ter sido António Mariano, próximo da União das Populações de Angola (UPA). Queimam sementes, destroem pontes fluviais, missões católicas, lojas e casas de brancos, louvam Patrice Lumumba, líder revolucionário do Congo, e clamam pela independência de Angola. As Forças Armadas esmagam a revolta com companhias de caçadores especiais e bombas incendiárias lançadas de aviões. Um responsável da Força Aérea diz ao embaixador americano em Lisboa, C. Burke Elbrick, que a violência teve origem na exploração dos nativos pela Cotonang, firma algodoeira luso-belga. O turbilhão na Baixa do Cassange é omitido da opinião pública. O esforço militar português orienta-se desde 1959 para África e retém lições da Argélia, onde a França enfrenta a subversão nacionalista, com meio milhão de soldados, mas os preparativos de defesa continuam em lume brando. Fevereiro 4-5 Centenas de negros atacam a Casa de Reclusão Militar e as cadeias civis de Luanda, com o objectivo falhado de libertarem presos políticos. Nos confrontos morrem quarenta assaltantes e sete polícias. O Governo vê-se forçado a emitir um aviso contra os esforços dos brancos para fazerem justiça pelas próprias mãos. A partir de Conackry, o MPLA reclama o 4 de Fevereiro como o início da luta armada em Angola. (...) Durante o funeral dos polícias, grupos civis armados fazem batidas aos musseques na periferia de Luanda e deixam algumas vítimas. (...) Uma combustão de violência e de pânico convulsiona Luanda. A mitologia da coexistência racial e da harmonia social - trave mestra da política africana de Portugal - sofre um abalo de credibilidade. (...) Março 6 Botelho Moniz (Ministro da Defesa) e Elbrick encontram-se durante três horas. Na maior da confidências, o embaixador diz ter recebido instruções do secretário de Estado, Dean Rusk, para pressionar Salazar a aceitar o princípio da autodeterminação em África. Botelho Moniz defende uma remodelação que dilate a base social do Governo, de forma a incluir elementos não comunistas da oposição, e a autonomia ultramarina no quadro de uma relação de "tipo Commonwealth". Introduz assim no imaginário político português uma perdurável e falhada projecção: a comunidade transcontinental, de inspiração britânica, que durante treze anos inspirou personalidades como Marcelo Caetano e António de Spínola. Março 7 Elbrick transmite a Salazar o documento enviado por Rusk, a mando de Kennedy. Os Estados Unidos prevêem convulsões graves em Angola, do tipo das do Congo ou piores, e vão votar contra Portugal em 15 de Março. Sentem que faltariam ao seu dever, como aliados na NATO, se não pedissem a Portugal a realização de reformas graduais em África, no sentido da "autodeterminação dentro de um prazo realista". (...) Salazar recusa a proposta de Washington para que Portugal acerte o passo com a comunidade internacional e, ao fazê-lo, assume a solidão num mundo hostil. Março 15-18 [No Conselho de Segurança das Nações Unidas] (...) os Estados Unidos, numa inversão da política da Administração Eisenhower, votam pela primeira vez contra Portugal ao lado da União Soviética. De madrugada, na Fazenda Primavera, perto de São Salvador, grupos de bacongos, empunhando catanas e canhangulos e julgando-se imunes às balas dos brancos, lançam uma ofensiva contra propriedades e povoações na zona de fronteira com o Congo, na Baixa do Cassange, até às cercanias de Vila Carmona (Uige). O Norte de Angola é avassalado por uma onda de brutalidade tribal: assassínios em massa, incêndios, destruições e rapina de haveres, violação de mulheres e crianças. Os tumultos espalham-se às plantações de café isoladas, aos postos de abastecimento, às vias de transporte. Esse terror apocalíptico lançado pela UPA tem por objectivo arrasar o sistema vital das comunidades brancas. (...) Richard Beeston, do Daily Telegraph, único repórter estrangeiro a viajar pelas áreas da violência depois do 15 de Março, conta a um diplomata americano em Londres que oitocentos portugueses, entre uma população de dez mil, foram massacrados em três dias. "Os rebeldes não estavam bem armados e, antes de lançarem a sua ofensiva, pareciam ter uma fraca organização. Foram convencidos por feiticeiros de que podiam matar os portugueses sem perigo para eles próprios e que as terras e propriedades dos brancos ficariam para eles." Muitos fazendeiros empreendem a fuga do inferno, chegam a Luanda e partem daí para Portugal. Mas outros juntam-se para defender o que é seu pelo trabalho, pegam em armas e formam milícias. Sem surpresa, a contra-ofensiva faz depredações semelhantes às dos bacongos e por todo o Norte vulgarizam-se cenas de horror e crueldade. (...) Março 22 Concentração de tropas no Norte de Angola. A Força Aérea bombardeia povoações nos distritos do Congo, Cuanza Norte e Malanje. O ministro do Ultramar, almirante Lopes Alves, parte para Angola. Mais de três mil e quinhentos colonos são evacuados por ponte aérea. Em Luanda, cerca de quatrocentos brancos cercam e isolam o consulado americano e atiram às águas da baía o carro do cônsul William Gibson. A inspiração americana da revolta da UPA é indisfarçável. (...) Henry Kissinger, secretário de Estado, confirmou mais tarde o apoio a Holden Roberto. (...) História e Ciência José Ferreira Nunes. Acordo de Alvor Na sequência do 25 de Abril, finalmente, no Alvor
(Portugal), os três concertaram com o Governo português um acordo sobre a fórmula pela
qual Angola se tornaria independente. Um conselho presidencial, constituído por um representante de cada movimento, presidiria ao Governo, rotativamente, até à data marcada para a independência, 11 de Novembro. O Governo devia tomar posse até ao fim de Janeiro, marcar eleições no prazo de nove meses, e deveria ser constituído um exército unificado. Na altura da independência, essas forças militares unificadas deveriam ter 48 mil homens - 24 mil efectivos portugueses e oito mil de cada um dos movimentos. Os militares portugueses em excesso seriam evacuados até 30 de Abril, e todas as tropas portuguesas deveriam deixar Angola até Fevereiro de 76. Os interesses dos portugueses residentes eram assegurados, e os movimentos comprometiam-se a considerar angolanos todos os que tivessem nascido em Angola, ou os que ali vivessem e se declarassem angolanos por opção. Contudo, a concessão de cidadania aos não nascidos em Angola era remetida para o que fosse estabelecido na futura Constituição. Assinaram por baixo, por Portugal, o ministro sem pasta major Melo Antunes, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, o ministro da Coordenação Interterritorial, Almeida Santos, e, por Angola, os líderes do MPLA, da FNLA e da UNITA. JN temas especiais José Gomes Independência e Guerra Civil Na sequência do derrube da ditadura em Portugal (25 de Abril de 1974), abre-se perspectiva imediata para a independência de Angola. O Governo português, negoceia com os três principais movimentos de libertação ( MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola, FNLA - Frente Nacional de Libertação de Angola e UNITA - União Nacional para a Independência Total de Angola ), o período de transição e o processo de implantação de um regime democrático em Angola (Acordos de Alvor, Janeiro de 1975). A independência de Angola não foi o ínicio da paz, mas o ínicio de uma nova guerra aberta. Muito antes do dia da Independência, a 11 de Novembro de 1975, já os três grupos nacionalistas que tinham combatido o colonialismo português lutavam entre si pelo controle do país, e em particular da capital, Luanda. Cada um deles era na altura apoiado por potências estrangeiras, dando ao conflito uma dimensão internacional. A União Soviética e Cuba apoiavam o MPLA, que controlava a cidade de Luanda e pouco mais. Os cubanos não tardaram a desembarcar em Angola (5 de Outubro de 1975). A África do Sul que apoiava a UNITA, por seu lado, invade Angola (9 de Agosto de 1975). O Zaire que apoiava a FNLA invade também este país (Julho de 1975). A FNLA conta também com o apoio da China, mercenários portugueses e também com o apoio da África do Sul. Os EUA que apoiaram inicialmente apenas a FNLA, não tardam a ajudar também a UNITA. Neste caso, o apoio manteve-se até 1993. A sua estratégia foi durante muito tempo dividir Angola. Lusotopia - Carlos Fontes.
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MEMÓRIAS Nasci a 25 de Março do ano de 1931 na Freguesia de Sª Maria na cidade de Bragança no Nordeste Transmontano. O meu pai era sargento do exército na altura prestando serviço no Regimento de Infantaria 10 mais tarde Batalhão da Caçadores 3 que estava instalado junto do castelo e que mais tarde foi demolido para dar uma visão mais ampla do castelo. Infelizmente o meu pai faleceu aos 33 anos de idade e tinha eu apenas 3. Sou o mais velho de três irmãos felizmente ainda vivos. A nossa mãe, viúva mas ainda jovem, tinha um irmão mais velho em Angola na povoação do Chengue próxima da cidade de Silva Porto (Kuito) onde tinha uma casa e a loja comercial. Por isso resolveu ir para Angola com a intenção de voltar a casar e nos poder dar um futuro melhor. Este meu tio que não cheguei a conhecer pessoalmente, vivia com uma preta e tinha, como é evidente, filhos mestiços, todos eles reconhecidos. Mesmo assim, em 1974/75 foi barbaramente assassinado à catanada pelos chamados revolucionáros locais a quem, como era costume, devia ter vendido fiado (a crédito) tudo o que eles necessitavam. Ficámos entregues a uma tia que nos criou com muito carinho e sacrifício não obstante recebermos uma pequena pensão do Estado pela morte do nosso pai. Esta tia foi praticamente a nossa mãe tendo inclusivamente vendido todo o seu património que herdara para nos criar porque a nossa mãe, embora já casada, devido às complicações com a Segunda Grande Guerra Mundial, nem sempre tinha possibilidade de nos enviar os meios suficientes para o nosso sustento.
Como se fora hoje, recorda-me da velha escola primária que frequentei no bairro da Estacada e o meu primeiro professor Sr. Vinhas, pessoa respeitável com barba comprida tipo judeu. Nas proximidades da velha escola estava já a ser construída uma escola nova moderna com características arquitectónicas completamente diferentes, mandada construir pelo governo de Salazar. Toda a estrutura principal era de granito, amplas salas de aula com lareira e sanitários num recinto coberto para nos intervalos das aulas nos abrigarmos quando chovia. Em Bragança havia pelo menos quatro dessas escolas, duas para rapazes e outras duas para raparigas. Ainda cheguei a frequentar uma dessas escolas novas na 4ª classe.
Tenho bem presente na memória que nas salas de aula na parede por detrás da mesa do professor, havia dois quadros: um com o retrato do Presidente da República na altura Marechal Carmona e do Primeiro Ministro Dr. Oliveira Salazar. No centro um crucifixo. Nas paredes laterais da sala de aulas havia quadros, não me lembra quantos, os chamados quadros de Salazar. Recorda-me apenas de dois que ficaram, não sei porquê, gravados na minha memória. Num deles do lado esquerdo via-se uma velha escola e o professor bêbado. Os alunos insubordinados saltavam pelas janelas para a rua. Do lado direito viam-se as escolas tal como aquela que eu vi construir. O outro era um quadro onde, do lado esquerdo, se via um automóvel da época talvez um Ford circulando numa estrada toda cheia de buracos. Do lado direito as estradas novas mandadas construir pelo Governo de Salazar. Recordo, também, que num recital feito na escola se exaltavam os quadros de Salazar. A mim coube-me dizer a introdução: "Os quadros de Salazar são a mais alta lição que ao Mundo se pode dar à Grei e a toda a Nação". E, naquele tempo, assim foi. Foram construídas as ditas escolas nas principais cidades, estradas cujo piso em paralelipipedos ligavam as principais cidades do país e pontes modernas para a época que ainda hoje estão activas. Foram também construídas outras importantes obras de arte.
Terminado o estudo primário (4ª classe) fui matriculado na Escola Industrial de Bragança que, naquele tempo, tinha apenas duas especialidades para os alunos do sexo masculino: carpintaria e serralharia. O liceu devido às nossas fracas possibilidades económicas era interdito às classes mais desfavorecidas porque não havia dinheiro para pagar as propinas e os livros. Por isso, a escola industrial era o meio mais económico para quem queria continuar estudando e fazer um curso prático que lhe daria no futuro algumas possibilidades de emprego. Nas tardes quentes de Verão íamos tomar banho no rio Sabor que é um afluente do Douro e ficava a cerca de 2 km da cidade. As suas águas, naquele tempo, cristalinas, com muitos peixes: barbos, escalos e bogas que nós pescávamos. Aproveitávamos para tomar banho, principalmente nos fundões e na represa da ponte nova que tinha uma agueira (canal) para o moinho do Castanheira. No início dessa agueira que era ladeada por arbustos, salgueiros e amieiros, as jovens costumavam tomar banho vestindo apenas as camisas interiores de Verão que, com a água, ficavam transparentem e pegadas aos corpos e nós, já rapazotes, aproveitávamos para dar uma espreitadela e apreciar com volúpia a intimidade dos seus esbeltos corpos.
A estrada que ia de Bragança a Miranda do Douro já era asfaltada e passava junto rio ao Sabor estando ladeada de cerdeiros (cerejeiras) bravos que davam frutos mais pequenos mas que depois de maduros eram muito saborosos. Era o que nos valia para saciar o apetite depois de uma tarde inteira no rio. Essas árvores tinham mais de 6 metros de altura e o seu tronco era muito liso, por isso, era preciso muita destreza para engatar (trepar) até ao cimo e poder comer as apetecíveis cerejas o que nem todos conseguiam fazer. Entretanto, para conseguir algum dinheiro e também ocupar o tempo principalmente nas noites de Inverno, juntamente com alguns amigos fui para a banda dos Bombeiros Voluntários de Bragança onde aprendi música e a tocar um instrumento que na altura estava vago. Sax soprano e depois mais tarde Sax alto. Nos dias de romaria nas aldeias no distrito de Bragança era costume contratarem uma banda de música para animar a festa e a banda dos Bombeiros Voluntários de Bragança era, na altura, a preferida por ser a melhor da região. No final do Verão, os lucros da nossa actividade nas festas eram distribuídos pelos elementos da banda que, naquele tempo, dava pelo menos, para comprar um bom fato de fazenda de lã e também um bom par de sapatos.
Estávamos em plena 2º Grande Guerra Mundial e Salazar para agradar a gregos e troianos enviava para a Inglaterra e para a Alemanha as sobras de Portugal. Havia racionamento de todos os bens alimentares e cada família tinha de adquirir senhas para os comprar de acordo com o agregado familiar. A nossa alimentação diária devido à escassez de meios financeiros era frugal, uma sopa de legumes com um courato e um fio de azeite por cima. Um copito de tinto normalmente acompanhava as refeições diárias que pouco variavam. Para quem vivesse na cidade como nós mas tivesse meios financeiros, havia sempre possibilidade de comprar no mercado negro o que era necessário. Mesmo assim, com essa alimentação simples e natural nunca tomei nenhum medicamento e a primeira injecção que apanhei foi contra a febre amarela quando embarquei para Angola tinha 20 amos de idade. As constipações por vezes muito frequentes no Inverno devido ao frio eram curadas com suadouro: um copo de bom vinho tinto bem quente adoçado com mel. Normalmente resultava mas houve amigos meus com mais posses que morrerem de tuberculose.
No nosso distrito havia minas de volfrâmio, mineral que era utilizado juntamente com o aço no fabrico de canhões e que era vendido a bom preço aos países beligerantes. Muita gente ganhou bastante dinheiro com o volfrâmio mas como não estavam habituados a tanta fartura era gasto em bens desnecessários e supérfluos e, assim como vinha, também se ia rapidamente. Num local onde se fazia a feira semanal em Bragança chamado Toural havia uma separadora de volfrâmio estrangeira. Nas imediações viam-se escórias provenientes do metal purificado ou apenas grosseiramente separado do minério bruto. Os largos portões da separadora eram de madeira mas estavam quase sempre em reparação tantas vezes eram partidos. Viatura carregada de volfrâmio e perseguida pelas autoridades que entrasse na dita separadora estava a salvo.
Em Maio de 1945 a Alemanha assinou a rendição. Logo pela manhã a banda da qual fazia parte deu uma volta à cidade tocando uma marcha alegremente para comemorar a rendição que acabava com o tormento da guerra e, consequentemente, com o racionamento que nos fora imposto durante alguns anos. Havia um convívio saudável entre rapazes e raparigas da mesma geração e nas romarias ou nas festas da cidade eram frequentes os bailaricos donde saía por vezes um namorico que no início era quase sempre escondido.
Concluído o curso industrial não era fácil conseguir um emprego. Com sorte, um amigo que pertencia também à banda do Bombeiros Voluntários disse-me que no Notário onde era amanuense precisavam de mais um empregado. Fui recomendado para o lugar pelo meu amigo e por lá fiquei durante uns anos onde pratiquei dactilografia numa velha máquina de escrever Remington e também escrita manual nos livros do cartório, aperfeiçoando assim o estilo de escrever. O vencimento para a época não era grande coisa, por isso, ou continuava como amanuense no Notário até melhorarem as condições ao que parecia estava para breve, ou teria de procurar outro modo de vida. Só me restavam poucas alternativas: aos 19-20 anos ir como voluntário para a aviação em Alverca, fazer o curso de furriel miliciano e por lá ficar o que não era fácil ou, então, ir para a PIDE como alguns dos meus amigos fizeram. Sempre era melhor do que estar desempregado.
Como amanuense do único notário de Bragança, conhecia muitas pessoas e, entre elas, algumas jovens que depois da conclusão do 5º ano do liceu e para ingressarem na Escola Nornal (Escola Superior de Educação) para se formarem em professoras do Ensino Primário (Essino Básico) precisavam reconhecer as assinaturas dos respectivos requerimentos. Por isso, quando me encontrava com elas na rua ou nos jardins mantinhamos uma conversa amena e agradável que ainda hoje, passados 58 anos, recordo com saudade e amor, porque não dizê-lo também. Naquela época (anos 50) recorda-me também de uma canção romântica brasileira que se chamava Copacabana cantada pelo "Braguinha" que uma dessas minhas amigas frequentemente cantava e que era transmitida pela Emissora Nacional ou pelo Radio Clube Português a qual, depois de muita pesquisa na Net consegui obter na versão original que podereis ouvir aqui. Estou certo de que as pessoas desse tempo que a ouvirem sentirão a mesma nostalgia que eu sinto.
Como sempre tive uma grande aptidão para a electrónica, com algum sacrifício, comprei alguns livros sobre o tema, muito comuns naquela época traduzidos do Francês, onde ensinavam a fazer receptores com detectores de galena, as chamadas simplesmente Galenas. Montei um desses receptores com o parco material que consegui eu mesmo fazer, inclusivamente os auscultadores que eram a peça principal e que foram feitos com fio muito fino do secundário de uma bobina de ignição avariada de um automóvel e com duas caixas de pomada para calçado vazias. Como não tinha minério de galena natural preparei-a com enxofre e limalha de chumbo tudo fundido num tubo de vidro até cristalizar. Com esse aparelho rudimentar conseguia escutar a BBC. Foi uma alegria indescritível. Mais tarde, já com mais conhecimentos de electrónica e mais possibilidades económicas, fiz um receptor com válvulas alimentado por pilhas e com os auscultadores apropriados. Com este pequeno receptor e com uma antena exterior conseguia ouvir não só a BBC como a Emissora Nacional e outras. Entretanto a minha mãe que tinha casado há anos e estava vivendo em Vila Luso (Luena), Angola, sabendo da minha situação, escreveu-me dizendo-me que era melhor eu ir para Angola porque lá teria mais facilidade de conseguir um emprego possivelmente na Diamang. Que me enviaria os meios monetários necessários para a passagem e a respectiva carta de chamada na altura estupidamente obrigatória. Perante todas as alternativas que tinha optei por ir para Angola. Contactei uma agência no Porto que se encarregava de conseguir passagens por via marítima para Angola. Em Junho de 1951 fui contactado por eles dizendo-me que tinha passagem marcada no navio Moçambique para 15 (?) de Junho e, por isso, comprei passagem de comboio para o Tua, daí para o Porto e depois para Lisboa. Foi uma viagem longa a que não estava habituado. Chegado a Lisboa, tinha à minha espera um primo que trabalhava como continuo no Ministério das Colónias. Passei de eléctrico pelo Terreiro do Paço e, foi aí, que pela primeira vez na vida vi o Tejo e o mar. Não fiquei muito surpreendido. No dia seguinte fomos à Companhia Colonial de Navegação para confirmar a passagem. Como ele tinha contactos frequentes com os funcionários da companhia perguntou a um dos seus amigos se havia uma passagem marcada em meu nome para o navio Moçambique. Para meu espanto não estava nada marcado. A agência do Porto sacou-me o dinheiro e fui enganado. Como o meu primo tinha conhecimentos na companhia, pediu ao amigo que me conseguisse uma passagem em terceira suplementar. Ouvi o funcionário dizer-lhe baixinho: - Esse é mesmo teu primo ou é dos nossos primos ? - Não, este é mesmo meu primo, vê lá o que podes fazer. E fez mesmo, conseguiu-me uma passagem em terceira suplementar para o Lobito no navio Moçambique. Entretanto, à noite, no Terreiro do Paço assisti encantado à passagem das Marchas Populares de Santo António de Lisboa. No dia seguinte foi mostrar-me o navio Moçambique que estava atracado no cais da Rocha. Foi a primeira vez que vi um navio daquele porte. Mas, mesmo assim, no meu imaginário, pareceu-me pequeno e, por isso, perguntei-lhe: - É pá isso não é um navio muito pequeno? Ele respondeu-me: - Não, é um barco normal e leva muitos passageiros e carga para África.
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