4 DE FEVEREIRO DE 1961

 

INÍCIO DA LUTA ARMADA DO MPLA

"O dia 4 de Fevereiro de 1961 marcou o início duma nova fase de luta. Neste dia, centenas de jovens e trabalhadores de Luanda, enquadrados por militantes do MPLA, atacaram as cadeias para libertar os presos políticos. A partir daí, intensificou-se a luta armada de libertação nacional, estendendo-se a várias frentes a guerra de guerrilha. Assim, progressivamente, foram sendo libertadas determinadas zonas do País, em que o MPLA organizava o povo, instalava escolas, lançado as bases da nova sociedade".

Angola Reconstrução Nacional, Edições DEPPI.

Guerra de África - Angola 1961-1974, Rui de Azevedo Teixeira, QN - Edição e Conteúdos, S. A.  pg 81. "A rebelião de 4 de Fevereiro, apresentada, ou melhor propagandeada, pelo MPLA como uma acção exclusivamente sua, não o foi defacto. O seu inspirador principal e alma foi o cónego português Manuel Mendes das Neves - mais tarde deportado para o convento de Soutelo, em Braga, e, quase simultaneamente, designado pela FNLA como seu presidente honorário - e a direcção operacional esteve a cargo de Neves Bendinha. Entre os executantes contavam-se simpatizantes, como Paiva, e quados do MPLA, como o comandante Tomás Ferreira ou Engrácia Francisca. Registe-se a ironia de boa parte dos executantes da acção subversiva violenta ser constituída por seminaristas do Seminário de São Domingos, digido por Manuel Mendes das Neves".


Autor, Reis Ventura

A SENTINELA

O bando concentrado no campo de futebol, nas vizinhanças do Muceque Lixeira, partiu-se em dois grupos, cabendo ao mais pequeno ir atacar o quartel da Brigada Móvel da Polícia. A todos fora distribuído o feitiço contra as balas. Todos tinham tomado o milongo da coragem. Todos acreditavam que o Deus dos brancos morrera e, por isso, eles já não tinham mais força. Bastava matar alguns e logo os outros fugiriam, como tinha acontecido no Congo Belga, donde viera o senhor Pierre mais o senhor Fernando.

O grupo destinado à Brigada Móvel levava um plano bem urdido. Os atacantes deviam meter ao Mercado da Pameli, atravessar pela Emissora Oficial (matando o guarda para que não desse o alarme) e avançar até à estrada do Catete, pelos eucaliptos. Aí, o grosso do bando escondia-se no capim, logo a seguir ao Bairro de Madame Berman, enquanto quatro homens iam liquidar a sentinela, daquela maneira que o «senhor Fernando» ensinara. E tudo o mais seria fácil.

Quando o grupo partiu, um dos que ficavam perguntou ao chefe:
— E nós?
— Nós vai todos junto na Estação do Bungo — declarou um preto alto, de vestuário mais cuidado e pronúncia afrancesada. — Mas, primeiro tem de arranjar uma coisa...Escolheu quatro homens, segredou-lhes rapidamente umas instruções e disse para os outros cabecilhas que aguardavam ordens:

— Toda a gente vai esconder nas barrocas, por baixo da casa do branco que trabalha nos mármore, e fica lá até a gente aparecer. Fica quieto e não faz barulho, mesmo se ouve tiros e confusão ... Andar!

Quando os outros acabaram de se sumir no carreiro que desce a falésia, os cinco negros, a um sinal do chefe, começaram a caminhar pelo asfalto, em direcção à cidade. Era uma noite de Fevereiro, quente, abafadiça, a prenunciar a primeira grande chuvada do ano. Devia passar das 2 horas da manhã. Pesadas nuvens de trovoada ocultavam o carão redondo e bolachudo da Lua cheia.

Terminadas desde há muito as sessões de cinema e abandonados, pelos últimos retardatários, os bares e esplanadas, a cidade adormecera, sob o céu, com a tranquila serenidade duma criança saudável. No silêncio impressionante, os cinco negros avançavam atentos, com as catanas curtas entaladas no cinto contra as costas, por dentro da camisa e com o cabo aflorando junto ao pescoço.

— Se calhar, a patrulha hoje não vem ...
— opinou um ambuíla alto e espadaúdo.
— Vem sempre! — garantiu o cabecilha.
— Há mais dum mês que eu a vejo passar, a esta mesma hora, vinda dos lados de S. Paulo. É uma «Station» verde ... Olha, ela aí vem!

Ouvia-se, efectivamente, ainda distante, o roncar dum motor de automóvel. E não tardou muito que, das bandas do posto da Boavista, surgisse o clarão dos faróis. O cabecilha, seguido dos comparsas, correu para a frente da viatura, agitando os braços. O carro da patrulha estacou de repente, com um aflitivo chiar dos pneus contra o asfalto.

— Que há? — perguntou paternalmente um guarda de rosto calmo e bonacheirão, que ia ao lado do motorista.
— Barulho, meu chefe! — disseram os cinco pretos ao mesmo tempo. — Barulho ali nas barrocas!
— Nós é estivador — acrescentou o cabecilha, adiantando-se.
— Vem agora do porto, onde teve serviço de noite. E foi atacado por uns bandido que estão nas barrocas, com facas. Parece é cabo-verdiano. Nós fugiu; mas outros ficou lá a lutar.
— Onde foi isso? — quis saber o guarda.
— Ali no frente. Por baixo daquele branco que tem loja de coisas de mármore, canteiro parece que chama. Nós pode ensinar...
— Salta para o estribo! — convidou singelamente o polícia.

O negro obedeceu, com um sorriso enigmático a arreganhar-lhe os beiços. E, agarrando-se com uma das mãos à ombreira da porta, com a outra, por cima do tejadilho, fez sinal aos parceiros para que seguissem atrás do carro.

— É já ali adiante! — informou depois, para dentro da viatura, com os olhos ávidos nas pistolas-metralhadoras dos guardas.
— Vamos lá, devagar... — disse o chefe da patrulha ao motorista. E acrescentou para o preto:
— Os bandidos eram muitos?
— Nós não reparou bem, meu chefe. Fugiu logo ...
— O carro pode chegar até lá?
— Até perto, meu chefe.

Sob a indicação do informador, o carro da patrulha rodou até muito perto da Oficina de Mármores e Cantarias, torcendo então para a esquerda, por um carreiro que levava a um quintalejo cheio de carros para reparação.

Deixando o carro, os três guardas, despreocupadamente, embora levando as suas armas, seguiram o informador. Atrás deles caminhavam os outros pretos.

— Parece eles esconderam mesmo ali...—segredou o cabecilha, indicando, alguns metros adiante, uma zona escura, circundada de tambores vazios.

Os guardas avançaram. Numa atitude de medo bem fingido, os cinco facínoras deixaram-se ficar para trás. E no momento em que os agentes da ordem, confiantes e desprevenidos, se curvavam a perscrutar a escuridão, atacaram-nos pelas costas, com as afiadíssimas catanas.

Atingidos com fundos e certeiros golpes na nuca, os três homens tombaram de borco, sem um gemido, jorrando sangue em borbotões. O cabecilha tirou-lhes rapidamente as armas e os sacos das munições.

— Vamos! — disse para os outros. — Depressa! Descendo em correria o barrocal, logo encontraram o bando, acaçapado entre os arbustos, perto dos muros da Mobil Oil.
— Já está? — perguntou aquele dos cabecilhas que dava pelo nome de «senhor Fernando».
— Já está! — respondeu sucintamente o recém-vindo. — Apanhámos duas metralhadoras. — E passou-lhe as armas.
— Uma é para ti — concedeu o outro generosamente. — Avante!

Seguiram até à passagem de nível, ao começo da estrada da Boavista, em frente dos armazéns da Junta do Café. Aí, o «senhor Fernando» destacou do grupo uns dez homens, que confiou a um negro atarracado, recomendando-lhe que fosse à estação do Caminho de Ferro, «para aquilo que ele sabia» ... Depois voltou-se para o resto do bando e, exibindo vaidosamente a pistola-metralhadora, informou:

— Nós vamos soltar os nossos irmãos que estão presos. À porta de armas da Casa da Reclusão, estava uma sentinela negra ... Com ela, vigiava também um cabo branco. Ambos naturais de Angola.

Tinham entrado de serviço à meia-noite, à hora da saída dos cinemas, quando a cidade oferece a sua última onda de vida e movimento, antes de adormecer. Durante meia hora, ouviram o roncar distante dos motores de automóveis na «Baixa» e viram as luzes dos faróis, desfilando pela Avenida Almirante Azevedo Coutinho, sobre a ferida gretada da falésia.

Ali perto, na Estação do Bungo, silvou repetidas vezes o apito duma locomotiva, na tarefa de agrupar a composição, que seguiria para Malange, ao romper da manhã. Depois, não houve mais apitos. Lá em cima, por trás do grande «écran» do «Miramar», apagaram-se as últimas luzes da esplanada. Pouco a pouco, foram cessando os mil ruídos da cidade. No cais, os guindastes, alinhados duma e doutra banda, erguiam-se, imóveis e hieráticos como grandes girafas dormindo em pé. De vez em quando, o feixe luminoso do farol das Lagostas varria a noite abafada no suadouro das nuvens baixas. E o farolim da ponta da ilha, dava-lhe, a espaços regulares, uma resposta acriançada, com o piscar da sua luzita de vaga-lume.

Durante segundos, a Lua cheia mostrou-se por entre um rasgão das nuvens, acendendo pálidos reflexos nos tanques prateados da refinaria do Alto da Mulemba. Mas logo se escondeu outra vez, deixando atrás de si uma escuridão mais espessa. Foi neste momento que os dois militares sentiram inexplicavelmente, nas suas almas iguais, sob o céu morno, a mesma sensação de opressivo silêncio.

— Eh! pá! — disse o cabo, que era de temperamento alegre e comunicativo.
— Está uma noite de fazer sono ao diabo! Gaita! Até um homem sua a alma! ...
— É mesmo, meu cabo! — fez sucintamente a sentinela negra.
— Chateiam-me estas nuvens mesmo em riba da cabeça! — continuou o cabo, limpando, com um lenço, o suor do pescoço.
— Parecem cobertores de papa em cima da gente. Uf... Tu donde és?
— Eu é da Damba, meu cabo. Mas sentou praça aqui. Já vive há muito tempo em Luanda.
— Pois eu nasci no Bailundo. Terra bem acabada, pá! Pequena, mas sem este calor estuporado do litoral. No Bailundo, durante o cacimbo, faz frio a valer. Dizem que é quase como em Lisboa. Tu já foste no Puto?

— Eu não. E o meu cabo?
— Também não. Mas os meus pais são de lá ...
— Atão um dia há-de lá ir — deduziu o soldado. — Eu tem um amigo que já foi no Lisboa. «Terra grande e bonita, mesmo» — diz ele. — O meu cabo quando vai lá?
— Falta o dinheiro — disse o branco melancolicamente. — E, além disso, já não tenho lá ninguém. Toda a minha família está no Bailundo há muitos anos. Daqui a dois meses, já volto para lá. Tenho a minha rapariga à espera, para casarmos. É tão bonita, pá! ...

Um ar sonhador perpassou no rosto moreno do militar. Por entre a doce névoa da sua incurável saudade, emergiu a carita engraçada da noiva, naquele seu jeito humilde e nostálgico de que ele, impulsivo e folgazão, tanto gostava, dentro da sábia lei das compensações com que a natureza determina a simpatia dos contrastes.

Ela era de Nova Lisboa; mas residia, desde criança, em Vila Teixeira da Silva, onde seu pai servia o Estado, como funcionário administrativo. Contrastavam no físico e no temperamento: ele alto e bravio, ela pequenina e submissa. Mas tinham uma coisa de comum: ambos adoravam crianças. «Havemos de arranjar, para nós, aí um rancho de dez!» — tinha ele dito maliciosamente pouco antes de vir para Luanda, numa tarde de namoro. E ela havia sorrido, concordando muito corada ...

— Tu não tens rapariga? — perguntou à sentinela negra, menos por curiosidade do que ao impulso dos próprios pensamentos.
— Eu é casado, meu cabo — informou o soldado.
— Tem mulher e dois filho pequinino.
— Casado mesmo, ou é só companheira? — quis saber o branco.
— Casado mesmo, com propriamente pela igreja, meu cabo. E os filhos está todos baptizado. Nosso tenente é o padrinho ...
— Viva! — fez o cabo, admirado. — Não sabia que eras compadre do nosso comandante.
— Na igreja é compadre, mas aqui é só sordado — esclareceu a sentinela, numa subtil mistura de amizade e respeito. E, mostrando os dentes alvíssimos num largo riso vaidoso, acrescentou: — Todos os dias de Natal, nosso tenente dá prenda nos meus meninos ...
— Eh! eh! — continuou em tom diferente, retesando os músculos e segurando melhor a arma.
— Olha os preto que vem acolá, meu cabo! ...

O branco seguiu a direcção indicada pelos olhos da sentinela. Um numeroso grupo de indígenas surgia silenciosamente dos lados do parque de minérios, entre uma composição ferroviária estacionada no desvio da linha e os armazéns da Junta do Café.

— São estivadores que voltam do porto — interpretou o cabo, depois de breve observação.
— Uhm! — desconfiou a sentinela, alongando os beiços em funil.
— Estivador fala muito e estes gajo vem calado! Repara já, meu cabo! Não é negros de Luanda, não ... Parece é mesmo matumbo. Eu vai ver que é que os gajo quer, meu cabo.
— Deixa-te estar no teu posto, pá! — ordenou o branco. — Eu é que vou saber donde vem esta malta.

E avançou para o bando ...

— Vocês deixa o branco chegar perto e ataca como eu ensinei — segredou o «senhor Fernando», empurrando para a sua frente dois dos companheiros, enquanto ele próprio recuava para detrás dum «jota» da composição ferroviária.
— Donde é a vinda, a estas lindas horas? — perguntou o cabo, em tom amigável, aproximando-se confiadamente, de mãos nos bolsos.

Mas, reparando, de repente, no cabecilha e na sua pistola-metra-Ihadora, acrescentou, siderado de espanto:

— Ele que raio de história é esta?!

E não teve tempo de dizer mais nada. Um dos bandidos arrancara a catana detrás das costas e atingira-o com uma cutilada na cabeça. E logo outra catanada, vibrada num braço, fez-lhe cair inerte a mão que buscava, no coldre, a coronha da pistola.

Tentou recuar, meio cego pelo sangue que lhe escorria da cabeça e rilhando os dentes a dominar a dor:

— Corre a avisar o Quartel General ! — gritou para a sentinela que vinha em seu auxílio — Ai ! ...
O gemido estertorou-se-lhe na garganta que uma catanada certeira cortara profundamente.

— Às armas! — bradou a sentinela. E já carregava sobre os facínoras, de baioneta em riste, quando sentiu que o seu camarada branco, tombado no chão, erguia para ele uma mão convulsa, num esforço derradeiro, a lembrar-lhe a ordem dada. E reparou também que o negro da pistola-metralhadora avançava para ele, convidando:

— Entrega a tua arma e vem combater do nosso lado. Não deves ficar do lado do branco. Tu é preto ...
— E tu é burro! — ripostou-lhe com desprezo.
— Eu não entrego nada. Eu é sordado português!

Fez novamente menção de carregar à baioneta. Mas repentinamente recuou, em dois saltos bruscos, e largou numa rapidíssima corrida para o «jeep» do comandante, bradando outra vez, a toda a força dos pulmões:

— Às armas!

Passada a momentânea desorientação causada pela imprevista atitude do soldado, os facínoras correram sobre ele. Mas já o «jeep» arrancava e rompia a grande velocidade, por entre a malandragem que abria caminho, espavorida. Com uma das mãos no volante e a outra a segurar a velha «Mauser», a sentinela negra ainda viu, no turbilhão daqueles terríveis segundos, o rodopio das catanas de ambos os lados do carro; e sentiu uma dor aguda num ombro; e aguentou o embate de algumas pedradas nas costas; e percebeu vagamente que, por cima da porta de armas, na frontaria da fortaleza, se abria uma janela. ...

«É o nosso comandante que já acordou ...» — pensou, contente de verificar que estava dado o alarme. E carregou mais no acelerador, distanciando-se rapidamente dos seus perseguidores.

Atravessava o parque dos minérios, quando ouviu, lá para trás, o estalar seco dos primeiros tiros. Era a pequena guarnição da fortaleza que se batia, resistindo galhardamente ao ataque. Recordou, por momentos, o «nosso cabo», aquele jovial camarada branco, retalhado e sangrento, escabujando no chão, sob as catanas dos assassinos. E acelerou ao máximo, com as mãos crispadas no volante e os dentes cerrados numa raivosa ânsia de chegar depressa.

Ante os seus olhos, desfilaram vertiginosamente as luzes da Avenida Marginal, desdobradas num rosário de missangas sobre o espelho sereno da baía. Numa curva apertada, em que os pneus gritaram aflitivamente, voltou para a esquerda, à esquina do Banco de Angola, e, logo depois, torceu para a direita junto da mercearia de Pinho & Arvela, meteu à Rua do Esquadrão e travou bruscamente à entrada do Quartel da Polícia, gritando para os guardas de piquete:

— Acudam à Casa da Reclusão! Está a ser atacada pelos bandidos!
— Como é isso? — perguntou um dos guardas.

Mas já o «jeep» arrancava novamente, em direcção à Avenida Álvaro Ferreira, rasgando o silêncio da noite com o roncar furioso do motor.

— Que há? — acudiu a perguntar um soldado cuanhama, quando o carro estacou junto do Quartel General.
— Há um ataque de negros à Casa da Reclusão. Avisa o nosso oficial de serviço. Depressa!

E rodou de novo, agora na intenção de voltar ao seu posto e gastar as cinco balas que, prudentemente, tinha guardado para quando fossem mais precisas. Mas pensou que talvez valesse a pena avisar também o regimento de Infantaria. Os bandidos traziam metralhadoras ... E, se calhar, eram muitos. Sim, porque só sendo muitos e bem armados é que se atreveriam a atacar os brancos. Lembrou-se, então, do seu comandante, tão amigo dos seus filhos, e que a essa hora estaria a lutar...

Sem mais hesitações, rumou para o alto da Maianga, abrandou ao passar pela sentinela da Companhia Indígena, a quem repetiu o aviso de alarme («Acorda o nosso Comandante, pá! Há confusão na Casa da Reclusão!») e seguiu a toda a velocidade até aos aquartelamentos do Regimento de Infantaria de Luanda. Aí, já havia notícia do assalto à Polícia Móvel e um pelotão preparava-se para seguir.

— Mais algum azar? — perguntou um capitão, aproximando-se do «jeep».
— Sim, senhor, meu capitão — declarou o soldado, descendo do carro e batendo a continência. — Os bandido está a atacar a Casa da Reclusão. Nosso cabo foi morto. Bandidos tem metralhadora ...

Com uma ruga de preocupação no rosto seco, o oficial deu rápidas ordens a um subalterno. Não tardou que mais dois carros, carregados de tropa, viessem juntar-se aos que iam partir em socorro da Polícia Móvel.

— Um motorista para este «jeep» — pediu o oficial, saltando para o «jeep» trazido pela sentinela.
— Vai eu mesmo! — acudiu a sentinela, sentando-se ao volante.
— Mas tu estás ferido! —objectou o oficial, apontando-lhe para a farda, toda ensanguentada num ombro.
— Não é nada, meu capitão! Eu nem sentiu ... Pode muito bem lutar com os bandidos.

O oficial teve um sorriso de agrado e o «jeep» arrancou mais uma vez ...Quando chegaram à Casa da Reclusão, já lá estavam reforços idos da 1.a Esquadra. E os assaltantes, falhada a sua tentativa de ataque à residência do sargento que tinha as chaves das celas dos presos e corajosamente repelidos pela pequena guarnição da fortaleza, batiam em debandada. Depois, foi durante o resto da noite e no dia seguinte, a caça aos facínoras foragidos por toda a área do Bungo, nas pregas dos barrocais e no formigueiro dos Muceques Rangel e Lixeira.

— Bravo, rapaz!—disse o comandante da Casa da Reclusão à sentinela negra quando, passado o perigo, ele se apresentou, ainda excitado da perseguição aos bandidos. — Foste um valente!
— Desculpa lá, meu comandante... — respondeu o soldado.
— Mas valente foi o nosso cabo que morreu. Eu só cumpriu as ordens do nosso cabo ...


Funeral

Ainda não tinham soado as 4 horas da tarde e já a estrada de Catete, desde o seu início, nas vizinhanças do aeródromo velho, até aos escritórios da Petrangol, começava a encher-se de carros e de povo. Trinta minutos mais tarde, não cabia mais ninguém no largo fronteiro ao Cemitério Novo e nos terrenos adjacentes.

Milhares de automóveis estacionavam por toda a parte onde coubessem as quatro rodas dum veículo. E uma enorme multidão se comprimia nas bermas da estrada e contra o arruamento central do Largo do Cemitério, por onde deveriam passar os carros que transportavam, desde a Igreja do Carmo, os restos mortais das vítimas dos acontecimentos da véspera.

Era a 5 de Fevereiro de 1961, numa tórrida tarde de domingo, que muito poucos, nesse dia, quiseram aproveitar para o habitual passeio pelos arredores da cidade. Quase todos tinham preferido vir ali prestar uma derradeira e comovida homenagem aos que haviam tombado em defesa da ordem, retalhados à catana, num vil e selvático ataque de surpresa.

Tinham morrido sete homens; cinco da Polícia Móvel, um da P. S. P. e o cabo do exército abatido junto da Casa da Reclusão. Luanda estava ali, em peso, para lhes render o seu último preito, numa enternecida manifestação da fraternidade lusíada e de solidariedade humana. Gente de várias raças, de todas as idades e de todas as condições sociais. Muitas centenas de mulheres e crianças. Ricos e pobres, patrões e empregados, artífices e doutores. Todos dolorosamente surpreendidos com o sangue derramado na sua pacata cidade; mas ainda confiados, sem receios e sem armas.

Enquanto se aguardava a chegada do cortejo fúnebre, comentavam-se os acontecimentos, que eram, desde o amanhecer de sábado, o tema obrigatório de todas as conversas. Lamentavam-se os mortos e os feridos com espanto e horror («tão desfigurados tinham ficado, coitadinhos»), mas sem o mais ligeiro sintoma de pânico. A grande massa da população estava muito longe de adivinhar que era aquele o prelúdio sangrento dum hediondo terrorismo em Angola. Ninguém encarou a hipótese de que tal selvajaria tivesse continuação. Sabia-se vagamente que o plano dos assassinos, gizado e comandado por agitadores vindos do exterior, era roubar as armas existentes no quartel da Polícia Móvel e soltar os presos da Casa da Reclusão Militar e das cadeias civis, para depois irem ao saque e à carnagem. Mas, não obstante beneficiar das circunstâncias favoráveis duma confiada convivência euro-africana e dos efeitos duma completa surpresa, o plano falhara em todos os seus objectivos, saldando-se por sete vidas perdidas. E, para os luandenses, era tudo. Ninguém pensava que a cidade corresse o mais pequeno perigo.

Por isso mesmo, naquele mar de gente, em maré cheia de penosas e vivíssimas emoções, ninguém sentira qualquer necessidade de defesa. No calor abafadiço e húmido do entardecer, os civis tinham posto uma gravata preta no colarinho das camisas de meia manga. Os militares vinham de farda branca, desarmados. A polícia, para o acompanhamento dos camaradas, deixara em casa pistolas e cacetetes. As únicas armas eram as carabinas da guarda de honra, com munição de pólvora seca. Amargamente, mas sem medo, comentavam-se os traiçoeiros assassínios do dia anterior.

— Sabem vocês como abateram a sentinela da Polícia Móvel? — dizia um morador do Bairro Madame Berman.

— Por meio dum ardil nojentamente cobarde. Mandaram adiante dois parceiros, amparando um terceiro meliante de cabeça atada num trapo molhado em sangue de galinha a fingir de ferido. Quando o guarda lhe perguntou o que queriam, responderam que traziam ali um homem gravemente ferido, numa desordem. Que estava quase a morrer. — «Tragam o homem aqui para dentro, que já telefono a pedir a maca» — dissera a sentinela, na sua boa fé, encaminhando-se para dentro do quartel. Mas, logo que ele se voltou — zás! — um dos patifes vibrou-lhe uma catanada certeira no pescoço.

— Safardanas! — comentou um funcionário administrativo.

Outros grupos relacionavam os motins com o caso recente do assalto ao Santa Maria ou citavam pormenores horrorosos. Ao cabo da Casa da Reclusão, tinham-no cortado todo, com uma fúria selvagem e porca de hienas famintas. Um dos feridos internados no hospital tinha dois lanhos enormes na testa, com os miolos a descoberto. E um dos guardas que vinham agora a enterrar fora quase completamente degolado. Os homens sublinhavam com exclamações de raiva estes pormenores macabros. Entre as senhoras havia crispações de náusea.

Mas já o cortejo fúnebre chegava ao largo, rompendo a custo por entre a massa compacta do povo. As urnas dos guardas da polícia vinham alinhadas num grande camião todo coberto de crepes. Logo a seguir, o caixão do cabo era transportado num carro do Exército. Atrás, caminhavam a pé as mais altas entidades, religiosas, civis e militares da Província.

De repente, no silêncio impressionante rebentaram, aqui e além, irreprimíveis soluços de senhoras, que levavam os seus lenços bordados aos olhos marejados de lágrimas. É que, entre os guardas perfilados, em cima do camião, ao lado das urnas dos camaradas, um rapagão alto e bem talhado na sua farda cinzenta, levava a cabeça descoberta e pendente, com as mãos trémulas a cobrir o rosto seco, chorando alto como uma criança. Todos reparavam naquela cena. E ninguém podia olhar para aquilo sem se comover.

Poucos, todavia, se aperceberam de que também ao volante do carro do Exército, um soldado preto voltava repetidamente os olhos para trás, a contemplar o caixão do «nosso cabo». E esses olhos, enternecidos e leais, estavam rasos de água ...

Era o soldado que vira morrer aquele camarada branco. Era a sentinela negra da Casa da Reclusão.

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