O QUE DISTINGUE UMA TINTURA VEGETAL
DO
"PRIMUM ENS"?
Vem isto a propósito do que temos lido frequentemente em alguns livros de "receitas" e também de "reputados" espagiristas.
Recentemente vimos no Compêndio de Processos Alquímicos publicado por Kessinger Publishing Company, USA, página 100, "A Preparação do Assim-Chamado Pimeiro Ser (ENS) de Cidreira ou Melissa officinalis".
Não sabemos exactamente quem foi o seu autor, mas seja quem for, o que descreveu foi apenas a preparação de uma vulgar tintura de Cidreira feita com óleo de tártaro como primeiro dissolvente e depois com espírito de vinho, e não o Primeiro Ser.
Esta tintura de Cidreira, na nossa opinião, nem sequer pode ser considerada como espagírica, porque uma tintura espagírica para ser considerada como tal, terão de estar obrigatoriamente presentes os três "princípios" fundamentais da planta, ou seja, o Enxofre, o Mercúrio e o Sal. No caso presente estão presentes apenas dois desses princípios, o Enxofre e o Mercúrio. Por isso, trata-se apenas de uma vulgar tintura, tal como as referidas nos antigos compêndios de medicina e não de um "PRIMUM ENS".
Então qual é a diferença que existe entre uma tintura espagírica e um Primeiro Ser? Se lerdes o meu escrito sobre tinturas espagíricas vereis que na sua preparação entram os três componentes essenciais da planta como já acima referimos.
A propósito e para vos facilitar a compreensão, vamos referir, precisamente, uma tintura de Cidreira. Podem usar-se dois processos: um, tal como o foi relatado na receita, dissolvendo primeiro a planta em óleo de tártaro e depois deitando por cima espírito de vinho, o qual retirará do óleo de tártaro a respectiva tintura que por diferença de densidade sobrenadará o dito óleo de tártaro.
Como dissemos no nosso escrito acerca das tinturas vegetais, nós preferimos fazer a tintura numa maceração a frio da planta fresca com puro espírito de vinho a 60% e não com um álcool qualquer do qual não se saiba a sua proveniência.
Depois de alguns dias (pelo menos 10) de maceração num frasco de vidro de boca larga bem fechado, filtra-se a tintura para outro frasco e incinera-se o resíduo, para dele se extraírem as cinzas, que depois de bem calcinadas poderão ser lançadas ainda quentes na tintura.
Procede-se depois à sua circulação e por último à sua filtragem ficando esta pronta para usar. Querendo ir um pouco mais além, pode calcinar-se novamente o resíduo, reduzindo-o a cinzas muito finas e bem calcinadas e voltando a deitá-las na respectiva tintura, circulando-a de seguida, tal como no processo anterior.
Nesta tintura espagírica estão contidos os três "princípios" fundamentais: Enxofre, Mercúrio e o Sal contido nas cinzas.
Se em vez de optardes por fazer a tintura de Cidreira fizerdes um destilado vegetal, as coisas passam-se de outra forma.
Destilareis a planta fresca com espírito de vinho puro pelo menos a 60% e este na destilação, arrastará consigo o Enxofre da planta. Resta-vos calcinar o resíduo da destilação, extrair por lixiviação o seu sal e juntá-lo ao destilado na circulação. O Sal se não for em excesso dissolver-se-á tal como aconteceu ao Sal contido nas cinzas.
Qual é pois, a diferença que existe entre esta tintura genuinamente espagírica, o destilado vegetal e o Primeiro Ser?
Depois de terdes feito a vossa tintura espagírica de Cidreira, deitai-a numa retorta com tubuladura e um recipiente com respirador e destilai até à secura com um calor suave que não ultrapasse os 80 graus C. O destilado será uma mistura inseparável de Enxofre e Mercúrio restando no fundo da retorta um mel espesso que deitareis numa pequena escudela e calcinareis bem, até que as cinzas sejam de cor cinzento claro. Lixiviai-as e coagulai. O que encontrareis na coagulação? O Sal "cru" da planta ou seja um carbonato de potássio.
Fazei o mesmo com o destilado. Este não deixará um "mel" como a tintura mas sim o Sal que se estiver impuro podereis calcinar, lixiviar, filtrar e coagular. O que tereis então? Apenas o Sal "cru" tal como no caso anterior. Porquê?
O Sal não foi "volatilizado" e sim apenas dissolvido na água contida no espírito de vinho a 60% e, assim, não se pode unir aos outros dois "princípios".
É fácil pois de ver que deste modo nunca tereis os três "princípios" indissoluvelmente unidos como obrigatoriamente terão de estar num Primeiro Ser.
Nas preparações que descrevemos apenas dois dos três princípios estão indissoluvelmente unidos: o Enxofre e o Mercúrio. O Sal continua "cru", por isso, como já dissemos, ele não se pode unir aos outros dois. Estas preparações nunca poderão ser consideradas um Primeiro Ser, mas apenas uma tintura e um destilado espagíricos de Cidreira.
São muitos aqueles que laboram neste erro grosseiro de considerar as preparações acima referidas um "PRIMUM ENS". Mesmo alguns "entendidos", conhecidos internacionalmente.
O que é, então, necessário para que uma preparação de Cidreira seja considerada um Primeiro Ser? Que os três "princípios" Enxofre, Mercúrio e Sal estejam indissoluvelmente unidos e para isso é necessário tornar o Sal volátil para que ele se possa unir inseparavelmente aos outros dois. É aqui que está a "chave" desta preparação que apenas alguns alquimistas já conhecem por nosso intermédio.
Se destilardes numa retorta com uma temperatura moderada, um Primeiro Ser de Cidreira, destilará primeiro o Enxofre e o Mercúrio indissoluvelmente unidos tal como na tintura e no destilado mas agora, arrastando consigo algum Sal volátil e, em vez de ficar no fundo da retorta como um "caput" morto, volatizar-se-á em parte como gelo nas paredes superiores da retorta e no seu corno. Basta deitar um pouco de espírito de vinho na retorta e destilar com fogo suave para este o arrastar consigo para o recipiente onde os três "princípios" ficarão indissoluvelmente unidos para sempre.
Concluindo, o segredo do Primeiro Ser é a Volatilização do sal pelo Enxofre e depois juntar-lhe o Mercúrio.
Isto sim, é um verdadeiro "PRIMUM ENS".
Rubellus Petrinus