
(Segunda Chave)
Esta chave refere-se à preparação do banho do Rei, ou seja, à preparação de uma água dissolvente do astro solar. Na gravura da segunda chave, pode ver-se um mancebo nu, alado e coroado, de pé sobre um par de asas, empunhando dois caduceus, no meio de dois combatentes (esgrimistas) que se degladiam.
Na espada do combatente da direita está enroscada uma Serpente e do da esquerda está pousada uma Águia. Por cima da coroa do jovem alado está o símbolo espagírico do mercúrio. Vê-se, ainda, de cada lado, entre ele e os combatentes, do lado direito o Sol e do lado esquerdo a Lua.
O comentário de Eugène Canseliet à segunda chave é o seguinte:
«Imagem expressiva da Noiva da Grande Obra, substituindo-a um mancebo nu, alado e coroado, jovem mercúrio e pequeno rei, conforme o atestam os dois caduceus onde a vara deu lugar ao ceptro soberano. Ele nasceu do sol e da lua dos filósofos porque se debatem os dois esgrimistas e, graças a estes, ele ganha em beleza, em pureza, o que perde com as fezes heterogéneas em volatilidade.
É isso que exprimem as grandes asas abandonadas e estendidas sobre o solo.»
De acordo com a figura, o simbolismo não nos parece difícil de interpretar: o mercúrio filosófico (jovem alado) é obtido pela acção dissolvente sobre a matéria primeira, da água resultante da luta dos dois campeões (duas substâncias químicas opostas) uma fixa e penetrante (serpente) e a outra volátil (águia). Esta água também seria o banho do Sol e da Lua.
No entanto, o comentário de Canseliet tomado a letra deixa transparecer que o mercúrio filosófico obtido pela via seca seria a conjugação do Sol (Enxofre) e Lua (Régulo). Isto na nossa opinião, nesta via, não corresponde à realidade operativa quanto muito corresponderia às purificações mercuriais.
Vejamos, agora, o que diz o texto da Segunda Chave na sua parte mais essencial:
«Da mesma maneira, quando se realiza o casamento do nosso noivo Apolo com a noiva Diana, preparam-se antes diferentes vestes, lava-se a fundo a cabeça e o corpo com as águas que devem ser destiladas por diferentes processos que te falta aprender, visto que são extremamente desiguais, umas fortes, outras fracas, conforme o uso que são requeridas, assim como já se disse para os diversos géneros de bebidas...
Mas meu amigo, toma atenção antes de tudo para que o noivo seja junto da noiva, todos nus e, desta forma, todas as coisas preparadas para o ornamento das vestes e relativas à beleza do rosto devem, de novo, ser retiradas, de forma que eles entrem na tumba nus como nasceram e que a sua semente não seja corrompida pela mistura de alguma coisa estranha.
Em conclusão deste discurso, te digo, com toda a verdade, que a água muito preciosa que forma o banho do noivo deve ser sabiamente confeccionada, com muito cuidado, de dois atletas (de duas matérias opostas), a fim de que um adversário excite o outro e, sobretudo, que sejam activos no combate e ganhem o preço da vitória.
Seguramente, não é útil à águia construir o seu ninho nos Alpes, porque os seus filhos morreriam por causa do frio da neve do cimo das montanhas.
Na verdade, se tu juntares à Águia o frio Dragão que tem, por muito tempo, o seu domicílio nas rochas, rastejando das cavernas da terra e que tu os coloques ambos sobre o assento infernal, então, Plutão soprará o vento e, do frio Dragão, fará sair um espírito volátil e ígneo que, pelo seu grande calor queimará as asas da Águia e produzirá um banho sudorífico. Tal como a neve nas mais altas montanhas começa a fundir e a formar a água, para que o banho mineral seja preparado e dê ao Rei fortuna e saúde.»
Se lerdes atentamente o excerto do texto, verificareis que, no início, o Mestre se refere ao noivado de Apolo e Diana e às águas com que deverão ser lavados. Já no fim, diz que, com toda a verdade, a água muito preciosa que forma o banho do noivo deve ser sabiamente preparada dos dois atletas, etc.
É mais que evidente que ele mudou completamente de discurso passando a referir-se ao banho do noivo e não ao noivado de Apolo e Diana. Termina, aconselhando, que o banho mineral seja bem preparado, para que dê ao Rei a fortuna e saúde.
Isto está de acordo com a primeira chave, pois, como vimos, a purificação descrita refere-se, apenas o Rei, isto é ao ouro.
Por fim, Basílio Valentim diz-nos como deve ser preparada a água para o banho do Rei.
Junta a Águia ao frio Dragão que tem o seu domínio nas rochas e mete-os juntos num assento infernal (forno). Plutão (rei dos infernos) soprará um vento (muito quente) que fará sair do frio Dragão um espírito volátil e ígneo que queimará as asas da Águia e produzirá um banho sudorífico. Depois, tal como a neve das mais altas montanhas, começa a fundir-se (com o calor) e a formar água, assim será preparada a água do banho do Rei.

Banho do Rei
(Imagem com links)
Transpondo isto para linguagem espagírica, a Serpente representa o nitro e a Águia o sal amoníaco. Portanto, a referida água deverá ser preparada pela reacção a quente numa retorta de vidro Pirex, com tubuladura., de duas substâncias químicas contrárias, uma fixa (nitro) e a outra volátil (sal amoníaco), ambas bem conhecidas desde a antiguidade pelos alquimistas.
Quando estas substâncias, misturadas em proporções ãã (iguais), deitadas por fracções sucessivas na retorta entram em contacto, por acção do calórico fornecido por um forno com temperatura controlada e em banho de areia, produzir-se-á uma violenta reacção química, que fará destilar pelo bico da retorta uma água sudorífica que tem a propriedade de dissolver o ouro ou Rei, por isso, conhecida por água régia.
Não queremos deixar de advertir, todos aqueles que, por curiosidade ou para confirmar o que dissemos, quiserem preparar esta água dissolvente pelo método indicado pelo Mestre nesta chave, que se abstenham de o fazer se não tiverem experiência de laboratório e conhecerem o toque de mão indispensável, caso contrário, expor-se-iam a um grande perigo, pois a retorta pode explodir, pelo excesso de pressão no seu interior, ocasionada pela rápida expansão dos gases. Depois de iniciada a reacção química entre os dois beligerantes (sais) é incontrolável e partiria de imediato a retorta, provocando-vos graves queimaduras.
A técnica a observar, como já dissemos, é deitar de cada vez pela tubuladura da retorta pequenas quantidades sucessivas de matéria e colocar de imediato a tampa.
Não queremos que, por negligência ou inexperiência, nada de mau vos possa acontecer. A alquimia tal como a química, tem os seus riscos que é necessário de antemão conhecer, para os evitar ou minimizar.
Além disso, não é preciso correr riscos desnecessários, porque existem outros métodos menos perigosos de preparar esta água, como mais adiante veremos.
Não há dúvida, e aqueles que ainda a tiverem que a percam, de que a alquimia é uma arte verdadeira, como já o demonstrámos com a explicação da primeira e, agora, da segunda chave.
Não obstante, continua a verificar-se uma divergência entre o texto desta chave e o seu simbolismo pictórico.
A figura da Segunda Chave mostra-nos simbolicamente quais as substâncias químicas necessárias à preparação desta água dissolvente, assim como o fim a que se desatina: a obtenção e purificação do mercúrio filosófico. Mas nós já o sabemos e no texto ficou bem claro, que a finalidade desta água é o banho do Rei (dissolução), com vista à extracção do seu mercúrio, do seu sal e, principalmente, do seu enxofre alquímico.
Vejamos, agora, o que Basílio Valentim diz no Último Testamento sobre a segunda chave, página. 216:
«Segunda Chave. Repara, meu amigo e toma esta coisa a peito como muito importante para a tua obra, para que disponhas o teu banho correctamente, de forma que nada seja acrescentado que não seja necessário, a fim de que a nobre semente do ouro não se deteriore por qualquer contrariedade ou heterogeneidade susceptível de destruir esta semente, a qual, sendo destruída, será impossível remetê-la a bom estado.
Portanto, toma cautela e cuidado ao ensinamento da Chave precedente e qual a matéria que deves tomar para o banho composto da água própria para o Rei que deve ser morto aí e a sua forma exterior destruída, a fim de que a sua alma pura possa sair imaculada.
Para este desígnio, é necessário que te sirvas do Dragão e da Águia que não são outra coisa que o salpetrio e o sal armoníaco dos quais, após a sua união, deve ser feita uma água régia, como te vou ensinar, no final, o toque de mão, quando descrever a particularidade do ouro e, bem assim, as dos outros metais.
Entretanto, precisas de saber que uma tal solução não é suficiente para que o Rei tenha ainda alguma intenção de deixar sair a sua alma para fora do seu corpo fixo, como tu podes experimentar...
Logo que o teu ouro seja dissolvido na referida água e seja reduzido a óleo amarelo e belo, deixa-o, então, num vaso bem fechado a digerir um dia e uma noite em banho-maria, muito brando; se houver fezes, separa-as, deita a solução pura e limpa numa cucúrbita ou noutro vaso e adapta-lhe um capitel e recipiente bem lutados. Digere e destila esta solução na areia, pouco quente, remexendo e agitando de vez em quando o vaso onde está o ouro e a água e repete isto três vezes. Agora, destila toda a humidade pelo banho-maria e encontrarás no fundo do alambique um pó de ouro que colocarás num vaso aberto sobre o fogo de areia, pelo espaço de uma hora, até que toda a humidade se evapore.»
E, para finalizar, continuamos a perguntar: porque é que o simbolismo representado na Segunda Chave também não está de acordo com o texto?
Rubellus Petrinus